O dólar dos Estados Unidos encerrou o primeiro trimestre de 2002 praticamente em situação de estabilidade em relação à cotação do final de 2001. Após um início de ano com valorização de 4,2% em janeiro, houve recuo em fevereiro e março, fechando o período com ganho de 0,1%. Considerando-se que o CDI acumulou rendimento de 4,2% no primeiro trimestre, chega-se ao cupom cambial (rendimento em dólar) de 4,1% no trimestre, ou 17,3% anualizado, como mostra a tabela 2.1.
O ano de 2002 iniciou ainda permeado pelas incertezas quanto ao futuro econômico da Argentina. Nesse contexto, o dólar abriu janeiro cotado a R$/US$2,3066 e foi gradualmente ganhando terreno até atingir o auge no trimestre de R$/US$2,4691, no dia 8 de fevereiro.Essa data merece destaque pois foi o último dia de câmbio fixo na Argentina após quase onze anos de paridade do peso em relação ao dólar. Existia forte apreensão no mercado quanto ao comportamento do peso no regime flutuante, que teve início dia 11 de fevereiro. No Brasil, as tesourarias dos bancos mantinham fortes posições compradas em dólar como forma de proteção frente às incertezas econômicas. Tal fato contribuía para aumentar a pressão altista da moeda estadunidense frente ao real. Entretanto, a transição argentina acabou sendo bem recebida pelo mercado, vez que mais cedo ou mais tarde uma ruptura no câmbio fixo seria inevitável. A partir de então o real passou a se valorizar frente ao dólar até o final de março, quando terminou cotado a R$/US$2,3236.O gráfico 2.1 mostra a trajetória da taxa de câmbio (Ptax800) ao longo do trimestre, em contraposição ao dólar futuro cotado pela BM&F.
Outro fato bem recebido pelo mercado foi o anúncio das operações de venda de LFT com swap cambial, no dia 28 de fevereiro. Por esse mecanismo, os títulos públicos cambiais que vencerem a partir de então (basicamente NTN-D e NBC-E) têm a alternativa de serem rolados com LFT (título pós-fixado, atrelado à taxa Selic) conjugado com cláusula de swap que permite, para o investidor, a troca da remuneração pós-fixada pelo cupom cambial do período. O detentor do título passa a assumir um passivo em taxa pós-fixada trocado com o Bacen por um ativo em remuneração cambial, com o acerto sendo feito mensalmente pela diferença entre ambos. Em termos de contabilidade da dívida pública, isso representa uma diminuição da exposição cambial na carteira do Tesouro, visto que títulos cambiais estão sendo trocados por LFT. Nessa engenharia financeira, o passivo em LFT entra na contabilidade do Tesouro enquanto o passivo cambial entra na contabilidade do Bacen, que justificou essa medida como sendo para "atender com maior eficiência as demandas dos agentes econômicos frente ao aperfeiçoamento dos instrumentos financeiros disponíveis no mercado". Entretanto, as emissões dos títulos cambiais tradicionais continuam, sendo essa apenas mais uma possibilidade de investimento oferecida ao mercado.
Quanto à venda direta de divisas pelo Bacen, neste primeiro trimestre não houve intervenção no mercado, como demonstra a tabela 2.2. Esse fato contrasta com o trimestre anterior, quando foram vendidos US$3,0 bilhões, ainda sob o impacto do anúncio, em julho último, de venda de US$6,0 bilhões até o final do ano como forma de atenuar os efeitos da pressão sobre o mercado de câmbio.
O gráfico 2.2 apresenta o fluxo líquido diário de compra e venda de divisas pelo mercado, bem como o estoque total acumulado desde janeiro de 2001. Destaque para o dia 20 de fevereiro, com venda recorde no trimestre de US$469,1 milhões, e para o dia 18 de março, com compra recorde de US$914,6 milhões. No primeiro, houve influência de vendas financeiras de US$948,3 milhões.Desse montante, remessas de US$352,2 milhões foram registradas sob a rubrica Capitais Estrangeiros de Longo Prazo.Já no último, houve impacto de compras financeiras de US$1,3 bilhão. Desse total, US$1,0 bilhão correspondeu a investimento direto no país/aumento de capital. O estoque acumulado iniciou janeiro em US$5,0 bilhões e encerrou o trimestre em US$3,8 bilhões. Portanto, houve venda líquida de US$1,2 bilhão no período. Por meio do gráfico 2.3, que traz a posição de câmbio líquida do sistema bancário, percebe-se essa predominância de venda neste primeiro trimestre. O ano começou com o sistema comprado em US$1,3 bilhão e fechou março vendido em US$104,0 milhões. A partir do dia 20 de fevereiro houve inversão no sistema, passando de posição comprada para vendida e assim se mantendo até o encerramento do período.A tabela 2.3 também mostra a posição de câmbio, porém, em termos de fechamento mensal.O segundo semestre de 2001 apresentou registros positivos de posição líquida em final de mês, fato que não ocorria desde novembro de 1997. Esse acontecimento pode ser entendido como um entesouramento preventivo de moeda estrangeira por parte do sistema bancário, como forma de proteção em meio às adversidades financeiras que pairavam sobre o mercado naquele momento. Entretanto, a partir de janeiro já se inicia o gradual desfazimento desses estoques e, a partir de fevereiro, o fechamento mensal já passa, novamente, a apresentar registros negativos.
No tocante às reservas internacionais, em março elas alcançaram US$36,7 bilhões, correspondendo a aumento de US$855,0 milhões (2,2%) ante os US$35,9 bilhões do fechamento do trimestre anterior, como pode ser visto na tabela 2.4. O gráfico 2.4 mostra a evolução das reservas internacionais desde abril de 2001. O nível mais alto do primeiro trimestre (US$37,0 bilhões) foi atingido no dia 13 de março.
Por fim, a tabela 2.5 traz a dívida pública interna indexada ao câmbio e a dívida total. Percebe-se que o trimestre anterior encerrou com uma dívida pública total de R$624,1 bilhões. Desse montante, R$178,6 bilhões correspondiam à dívida atrelada ao câmbio. Após aumentar em janeiro, principalmente devido à valorização do dólar, a dívida cambial voltou a recuar em fevereiro e março, após o desfecho da transição econômica argentina. Ao final deste primeiro trimestre, a dívida total fechou em R$626,3 milhões, dos quais R$179,6 milhões correspondem a títulos públicos indexados ao câmbio. Em termos percentuais, o trimestre anterior fechou com exposição cambial de 28,6% e este com 28,7%, após ter atingido o auge de 29,0% ao final de janeiro. O gráfico 2.5 mostra a trajetória da relação entre dívida pública cambial e total desde janeiro de 2001.Por acordo firmado junto ao FMI, o governo brasileiro compromete-se a só emitir novos títulos públicos cambiais para fazer rolagem dos antigos que vencem em sua carteira. A intenção é fazer a gradual migração da dívida pública cambial para não-cambial, reduzindo, dessa forma, a vulnerabilidade da dívida pública interna brasileira.