No terceiro trimestre do ano, a taxa de câmbio registrou desvalorização de 2,4% (valorização de 1,4% em julho, e perdas de 2,7% em agosto e de 1,1% em setembro). Dessa forma, a ptax800 para venda, que havia encerrado o mês de junho cotada a R$/US$ 1,8000, fechou setembro indicando R$/US$ 1,8437. Considerados os três primeiros trimestres de 2000, a cotação da moeda norte-americana apresentou variação de 3,1%, o que, numa hipotética comparação com a variação acumulada do CDI (13,1%), significaria ganho líquido de 9,7% de janeiro a setembro para um investidor não residente, ou 13,2% em base anual. As variações do dólar, bem como da taxa do CDI, estão reproduzidas na tabela 2.1.
Se tomarmos a variação de alguns dos principais índices de preço no período como base comparativa, veremos que o IGP-M somou variação de 8,5%, que o IPC-A, índice indicativo para a meta de inflação adotada pelo Banco Central, acumulou 4,9% e que o IPC da Fipe sofreu variação ainda menor, ficando em 4,2%. Em outras palavras, a evolução observada na taxa cambial nos primeiros nove meses do ano ficou bastante aquém da variação dos principais índices de preços do país no mesmo período.
O gráfico 2.1 traz a evolução da cotação de venda da ptax800, que chegou ao ponto mínimo de R$/US$ 1,7748 no dia 31 de julho e, a partir daí, iniciou uma escalada quase constante até atingir o máximo de R$/US$ 1,8594, no dia 22 de setembro, refluindo para o já citado valor de R$/US$ 1,8437 ao final de setembro. Ao contrário do trimestre anterior, quando o comportamento da taxa de câmbio foi guiado quase que exclusivamente por fatores externos, como os problemas da economia argentina e a enorme volatilidade da bolsas de valores, em particular da Nasdaq, no trimestre em análise a cotação do dólar no mercado doméstico tendeu a acompanhar mais de perto os fluxos cambiais observados no dia a dia – sem, é claro, perder de vista a conjuntura externa.
Com pode ser visto no gráfico 2.2, no mês de julho, período em que o mercado cambial tendeu a apresentar superávits diários, houve clara tendência de valorização da moeda nacional. Nesse período, o resultado consolidado do mercado de câmbio, segmentos livre e flutuante, chegou a somar praticamente US$ 1,0 bilhão de ingressos líquidos. Isso começou a mudar com o intenso movimento remissivo verificado nos dias 3 e 4 de agosto, que alcançou nesses dois dias saídas líquidas superiores a US$ 1,2 bilhão. Em agosto, o preço da moeda norte-americana sofreu alta quase contínua, até alcançar o valor de R$/US$ 1,8349, no dia 29, e encerrar o mês em R$/US$ 1,8234. Em relação ao fluxo líquido de agosto, devem ser lembradas as compras de dólares efetuadas pelo Banco Central. Nos dias 15 e 22, respectivamente, o Bacen comprou US$ 2,0 bilhões e US$ 0,6 bilhão, recursos referentes ao lançamento de ADR da Petrobras na Bolsa de Nova Iorque. A tabela 2.2, que traz as compras líquidas do Banco Central, mostra essa absorção líquida por parte da Autoridade Monetária em agosto.
Além de um mercado cambial mais seco, outros fatores de pressão sobre a taxa de câmbio foram a percepção clara das dificuldades de obtenção de saldo comercial positivo em 2000 e a contínua pressão dos preços do petróleo, que após a breve queda verificada em julho voltaram a apresentar trajetória de alta: em agosto o preço em US$/barril do petróleo do tipo brent fechou cotado a 34,9, representando aumento de quase 50% no período de um ano.
O mês de setembro não foi muito diferente, apesar da boa notícia do recuo no preço do petróleo, que encerrou o mês em 28,6 US$/barril, patamar semelhante ao verificado em maio, o mercado de câmbio manteve-se relativamente estreito. Como pode ser observado no gráfico 2.2, excetuando o movimento fortemente positivo do dia 5 de setembro – em grande parte graças à significativa internação de US$ 607 milhões pelo Citibank, classificada como empréstimo a residentes – o mercado apresentou mais fluxos negativos do que positivos. Além disso, a certeza de que o mês marcaria a obtenção do primeiro déficit comercial mensal desde janeiro também contribuiu para afetar o humor do mercado. Encerrado o mês de setembro, o déficit na balança comercial alcançou US$ 320 milhões, reduzindo o saldo acumulado no decorrer do ano em praticamente um terço, de US$ 1,0 bilhão em agosto para US$ 717 milhões. A taxa de câmbio em setembro, portanto, voltou a subir, até alcançar o pico do trimestre, no dia 22, com a Ptax fechando em R$/US$ 1,8594, o maior valor desde o dia 10 de dezembro de 1999, quando a cotação havia sido de R$/US$ 1,8667. Na última semana de setembro o preço da moeda norte-americana caiu ligeiramente, para R$/US$ 1,8437, encerrando o trimestre ainda em valor bastante acima dos verificados na maior parte do período.
Os movimentos da taxa de câmbio no período podem ser acompanhadas tanto no gráfico 2.1, que traz também as cotações dos contratos futuros de dólar da BM&F, quanto no gráfico 2.2, que além da taxa de câmbio informa o fluxo líquido diário dos dois segmentos do mercado de câmbio – livre e flutuante – e o fluxo total acumulado no período. O resultado líquido do mercado cambial no trimestre julho-setembro, desconsiderada a já comentada absorção de US$ 2,6 bilhões pelo Banco Central, foi negativo em US$ 703 milhões, volume suprido pelo aumento da posição líquida vendida do sistema.
Dessa forma, a posição de câmbio do mercado, que mostrava vendas líquidas de US$ 1,4 bilhão no dia 30 de junho, foi de US$ 2,2 bilhões de vendas líquidas no último dia útil do trimestre, o que representa variação de US$ 759 milhões. A diferença entre o fluxo líquido do período e a variação da posição líquida normalmente deve-se a ocorrência de baixas ou cancelamentos de operações e/ou a eventuais lançamentos valorizados. As posições de encerramento mensais do mercado estão reproduzidas na tabela 2.3, estando a movimentação diária do posicionamento líquido do sistema bancário reproduzida no gráfico 2.4.
Já o gráfico 2.3 mostra o comportamento da taxa de câmbio, do preço dos C-Bonds e do índice composto da Nasdaq, numa escala ajustada. Como comentado, o que afetou a cotação do dólar no mercado doméstico no trimestre abril-junho foram basicamente fatores externos e isso se refletiu na evolução das variáveis mostradas no gráfico 2.3, com movimentos extremamente parecidos nos preços dos C-Bonds e do índice composto da Nasdaq e comportamento simétrico do preço do dólar em relação a essas duas variáveis. Esse fenômeno não se repetiu com mesmo vigor no terceiro trimestre do ano.
Interessante notar que as ações do Comitê de Política Monetária - Copom no trimestre demonstram claramente as diferenças entre os meses de julho – de relativa calmaria – e os meses de agosto e setembro. Com efeito, a meta para a taxa Selic que na abertura do trimestre estava em 17,5% foi reduzida para 17,0% a partir do dia 10 de julho, por meio do uso do chamado viés de redução. Esse novo alvo vigorou até o dia 19 de julho, quando o Copom, em sua 49ª reunião, nos dias 18 e 19, resolveu, por unanimidade, baixar novamente a meta da taxa Selic, para 16,5%, a vigorar no dia 20 de julho. A partir daí, com a própria cotação do dólar podendo servir de termômetro das expectativas, o comportamento do Copom voltou a ser conservador. Em sua 50ª reunião, nos dias 23 e 24 de agosto, considerando entre outras coisas que "o choque adverso de preços [do petróleo] revelou-se duradouro e a probabilidade de novas altas aumenta devido a proximidade do inverno no hemisfério norte e a ausência de sinais claros da OPEP quanto ao volume pretendido de produção" e que "as informações contidas nos indicadores de preços mais recentes (...) resultaram em revisão para cima nos valores esperados para a inflação em 2000", o Copom decidiu manter a meta para a taxa Selic em 16,5% ao ano. O mesmo ocorreu na 51ª reunião, nos dias 19 e 20 de setembro, em que o Comitê, considerando não ter havido mudanças substantivas no ambiente econômico em relação ao quadro traçado na reunião anterior, manteve a meta de juros nos mesmos 16,50%. O comportamento dos juros básicos no mercado à vista pode ser checado no gráfico 2.7, que também traz a cotação dos contratos futuros de DI negociados na BM&F no período. Já no gráfico 2.8 estão listadas as taxas diárias do swap dólar versus DI, para seis e doze meses.
Em se tratando das reservas internacionais, os valores de encerramento mensal, no conceito caixa e liquidez, estão reproduzidos na tabela 2.4. No período julho-setembro houve crescimento de US$ 3,2 bilhões no conceito liquidez, frente ao saldo registrado ao final de junho (US$ 28,3 bilhões). A evolução diária das reservas internacionais nesse conceito está reproduzida no gráfico 2.5, e os fatos mais relevantes no período que contribuíram para o aumento das mesmas foram os ingressos decorrentes do lançamento de títulos da República - no dia 5 de julho, por exemplo, houve ingresso de US$ 714 milhões referentes à emissão do bônus Euro 05, e no dia 26 de julho houve ingressos referentes a parte da emissão do bônus Global 07 – e a aquisição pelo Banco Central, junto ao Tesouro Nacional, dos dólares relativos à emissão de ADR da Petrobras na Bolsa de Nova Iorque: US$ 2,0 bilhões no dia 15 de agosto e US$ 554 milhões no dia 22 de agosto.
Como pode ser observado na tabela 2.5, no trimestre em foco foram anunciados pelo Banco Central 16 leilões de títulos indexados ao câmbio, dos quais 8 foram emissões para compor a carteira da autoridade Monetária. A tabela 2.5 traz ainda cinco leilões de NBC-E realizados no último dia de junho, mas que tiveram a liquidação financeira no dia 3 de julho (quatro dos quais foram emissões para a carteira do Banco Central). O prazo de colocação das NBCE em mercado variou entre 1080 e 1427 dias, com as taxas pagas oscilando entre 10,67 e 11,28% a.a., além da variação cambial. O gráfico 2.6 traz as colocações de títulos cambiais desde o quarto trimestre de 1999, podendo ser notado que nesse período houve redução substancial no custo de colocação e alongamento de prazos.
No trimestre, houve resgate líquido da dívida pública em títulos com correção cambial. Considerados os leilões com liquidação financeira no trimestre – desprezando o último leilão do trimestre em análise e considerando o último leilão do trimestre anterior, foram colocados em mercado o equivalente a US$ 5,5 bilhões em NBCE, contra vencimentos de US$ 6,4 bilhões em títulos cambiais no mesmo período (US$ 4,3 bilhões em NBCE e US$ 2,1 bilhões em NTN-D). Dessa forma, houve ligeira queda no principal da dívida em títulos cambiais, que caiu dos US$ 52,5 bilhões, posição de 30 de junho para US$ 51,5 bilhões ao final de setembro.