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107ª Reunião

Sumário
Evolução recente da inflação
Avaliação prospectiva das tendências da inflação
Implementação da política monetária
Atividade econômica
Mercado de trabalho
Crédito e inadimplência
Ambiente externo
Comércio exterior e itens do balanço de pagamentos
Mercado monetário e operações de mercado aberto
 
Data: 19 e 20/4/2005
 
Local: Sala de reuniões do 8º andar (19/4) e do 20º andar (20/4) do Edifício-Sede do Banco Central – Brasília – DF
 
Horário de início: 17h30 (19/4) e 16h43 (20/4)
Horário de término: 20h00 (19/4) e 19h03 (20/4)
 
Presentes:
Membros do Copom
Henrique de Campos Meirelles – Presidente
Afonso Sant’Anna Bevilaqua
Alexandre Schwartsman
Antonio Gustavo Matos do Vale
Eduardo Henrique de Mello Motta Loyo
João Antônio Fleury Teixeira
Paulo Sérgio Cavalheiro
Rodrigo Telles da Rocha Azevedo
Sérgio Darcy da Silva Alves
 
Chefes de Departamento (todos presentes no dia 19)
Altamir Lopes – Departamento Econômico
Ivan Luis Gonçalves de Oliveira Lima  – Departamento de Operações do Mercado Aberto
José Antônio Marciano – Departamento de Operações Bancárias e de Sistema de Pagamentos
José Pedro Ramos Fachada Martins da Silva – Gerência-Executiva de Relacionamento com Investidores
Marcelo Kfoury Muinhos – Departamento de Estudos e Pesquisas (também presente no dia 20)
Renato Jansson Rosek – Departamento de Operações das Reservas Internacionais
 
Demais participantes (presentes no dia 19)
Alexandre Pundek Rocha – Consultor da Diretoria
Eduardo Fernandes – Consultor da Diretoria
Flavio Pinheiro de Melo – Consultor da Diretoria
Katherine Hennings – Consultora da Diretoria
João Batista do Nascimento Magalhães – Assessor Especial da Presidência
Jocimar Nastari – Assessor de Imprensa
 
Os membros do Copom analisaram a evolução recente e as perspectivas para a economia brasileira e para a economia internacional, no contexto do regime de política monetária, cujo objetivo é atingir as metas fixadas pelo governo para a inflação.
 
Evolução recente da inflação
 
1. A inflação em março manteve-se em patamar elevado em decorrência, principalmente, de aumentos de preços em itens localizados, porém com impactos expressivos sobre a evolução dos principais índices. A despeito desse comportamento, observou-se desaceleração para a maior parte dos componentes dos índices, no período. Relativamente ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a variação em março repetiu, praticamente, a observada no mês anterior, como resultado da aceleração do conjunto dos preços monitorados e da desaceleração do conjunto dos preços livres. No atacado, observou-se o recrudescimento da alta dos preços agrícolas, refletindo, sobretudo, os efeitos da estiagem sobre a safra de grãos.
 
2. O IPCA cresceu 0,61% em março, ante 0,59% em fevereiro. Com esse resultado, a variação no ano atingiu 1,79%, e a acumulada em doze meses 7,54%. No mês, os preços monitorados e administrados por contrato variaram 1,29%, respondendo por 0,38 p.p. da variação do índice, com destaque para os impactos do aumento das tarifas de ônibus urbano em São Paulo e em Porto Alegre, que contribuíram conjuntamente com 0,25 p.p. para o resultado do período. Destacou-se, ainda, a contribuição de 0,08 p.p. dos reajustes das tarifas de água e esgoto em seis capitais. O conjunto de preços livres considerados no cálculo do IPCA aumentou 0,33% em março, frente a 0,77% no mês anterior, respondendo por 0,23 p.p. da variação mensal do índice. A menor taxa do grupo educação, 0,4% ante 5,3% em fevereiro, contribuiu significativamente para esse comportamento.
 
3. O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) registrou variação de 0,99% em março, contra 0,4% no mês anterior, acumulando aumentos de 1,73% no primeiro trimestre de 2005 e de 10,92% nos últimos doze meses. Considerados os componentes do IGP-DI, o Índice de Preços ao Consumidor – Brasil (IPC-Br) aumentou 0,7% no mês, após alta de 0,43% em fevereiro, também refletindo a aceleração de preços dos itens transportes e habitação como ocorreu com o IPCA. A elevação do Índice Nacional do Custo da Construção (INCC) atingiu 0,67% em março, acelerando em relação à variação de 0,44% observada no mês anterior, repercutindo os aumentos dos custos da mão-de-obra no período. A variação do Índice de Preços por Atacado – Disponibilidade Interna (IPA-DI) alcançou 1,14% em março, ante 0,39% em fevereiro, acumulando 12,8% em doze meses.
 
4. A aceleração do IPA-DI em março refletiu, sobretudo, o aumento de 3,59% nos preços agrícolas no período, comparativamente à alta de 1,29% no mês anterior, principalmente pelas elevações nos preços de arroz, milho, trigo e soja. Os preços industriais registraram aumento de 0,3% em março, ante 0,08% em fevereiro. Considerando o Índice de Preços por Atacado (IPA) segundo os estágios de processamento, verificou-se, de fevereiro para março, arrefecimento na elevação dos preços de bens finais e de bens intermediários, enquanto os preços das matérias-primas brutas mostraram reversão, com alta de 2,91%, ante a queda de 1,1% em fevereiro, principalmente pelo comportamento dos preços das matérias-primas de origem agropecuária.
 
5. Os núcleos de inflação para o IPCA, obtidos pelo método das médias aparadas, elevaram-se em março. O núcleo com suavização situou-se em 0,62%, comparativamente a 0,6% no mês anterior, e totalizou 7,42% em doze meses. A mesma medida para o núcleo, calculada sem o procedimento de suavização de itens preestabelecidos, passou de 0,43% em fevereiro para 0,49% em março, com aumento de 6,33% em doze meses.
 
6. O núcleo calculado pela exclusão de alimentos no domicílio e preços monitorados recuou de 0,93% em fevereiro para 0,41% em março. Esse recuo deveu-se, sobretudo, ao esgotamento das pressões sazonais do grupo educação. Em doze meses, essa medida de núcleo do IPCA apontou variação de 7,31%.
 
7. O núcleo de inflação para o IPC-Br, calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) pelo método das médias aparadas simétricas, atingiu 0,49% em março, ante 0,36% em fevereiro, totalizando alta de 5,68% em doze meses.
 
8. O índice de difusão do IPCA mostrou redução no número de itens que registraram variações positivas pelo segundo mês consecutivo, passando para 63,9% em março, ante 64,6% em fevereiro e 73,2% em janeiro. 
 
 
Avaliação prospectiva das tendências da inflação
 
9. Os choques identificados e os impactos foram reavaliados de acordo com as novas informações disponíveis. O cenário considerado nas simulações contempla as seguintes hipóteses:
 
a) as projeções para os reajustes totais nos preços da gasolina e de gás de botijão para 2005 foram mantidas em valor igual ao da reunião anterior: 0%;
 
b) em relação às tarifas de telefonia fixa, as projeções de reajustes para 2005 sofreram redução de 0,8 p.p., passando de 8,7% na reunião de março para 7,9% atualmente. Já as projeções para reajustes das tarifas de energia elétrica residencial foram elevadas de 9,5% para 10,8%, considerando o acumulado para 2005;
 
c) para o conjunto total de itens administrados por contrato e monitorados, com peso de 29,4% no IPCA de março, projeta-se aumento de 7,2% para todo o ano de 2005, valor 0,3 p.p. maior que os 6,9% projetados na reunião anterior;
 
d) em relação à projeção de reajuste do conjunto dos itens administrados por contrato e monitorados para 2006, baseada no modelo de determinação endógena de preços administrados, não houve alteração, permanecendo em 5,1%. Esse modelo considera componentes sazonais, variações cambiais, inflação de preços livres e inflação medida pelo Índice Geral de Preços (IGP);
 
e) a projeção para o spread de seis meses sobre a taxa Selic, seguindo especificação de um modelo VAR que utiliza Selic e swap em níveis a partir dos valores vigentes nos dias que antecederam a reunião do Copom, parte de uma média de 34 p.b. no segundo trimestre de 2005 e alcança 44 p.b. no último trimestre de 2006.
 
10. Em relação à política fiscal, supõe-se o cumprimento da meta de superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2005 e em 2006. São mantidas as demais hipóteses consideradas na reunião anterior.
 
11. A partir das hipóteses do cenário de referência, que incluem a manutenção da taxa de juros em 19,25% ao ano e da taxa de câmbio em patamar próximo ao que prevalecia na véspera da reunião do Copom (R$2,60), concluiu-se que as projeções de inflação estão acima do objetivo de 5,1% para 2005, mas abaixo do centro da meta em 2006. No cenário de mercado, que incorpora as trajetórias para a taxa de câmbio e para a taxa Selic esperadas pelos agentes do mercado na véspera da reunião do Copom, de acordo com os dados da pesquisa realizada pela Gerência-Executiva de Relacionamento com Investidores (Gerin) do Banco Central do Brasil, as projeções se encontram acima do objetivo de 5,1% para 2005 e acima da meta de 4,5% para 2006.
 
 
Implementação da política monetária
 
12. A variação do IPCA em março, de 0,61%, ficou em patamar próximo aos registrados nos dois meses anteriores. A inflação do mês teve, novamente, contribuição significativa de um item específico – no caso, a tarifa de ônibus urbano. Além desse item, outro componente do grupo de preços monitorados – a taxa de água e esgoto – também apresentou forte aceleração em relação a fevereiro. Por outro lado, passado o efeito do reajuste em fevereiro das mensalidades escolares, os preços livres desaceleraram-se, em especial no grupo de bens não-comercializáveis. Apesar da permanência da inflação mensal no mesmo nível dos dois meses anteriores, reduziu-se novamente o número de itens no índice que tiveram incremento de preços.
 
13. A inflação medida pelo IGP-DI passou para 0,99% em março, acelerando-se, assim, pelo segundo mês consecutivo. Esse comportamento deve-se principalmente à variação do IPA, novamente devido à aceleração nos preços dos produtos agrícolas, que passaram de uma variação de 1,29% em fevereiro para 3,59% em março, refletindo ainda os efeitos de condições climáticas desfavoráveis. A alta verificada recentemente nos preços de commodities agrícolas no mercado internacional poderá representar fator de pressão adicional sobre o IPA agrícola. Já o IPA de produtos industriais vem mantendo taxas de variação reduzidas desde dezembro passado, mas registrando, recentemente, ligeira aceleração. Conforme destacado nas Notas da reunião de março do Copom, a menor variação em meses recentes do IPA industrial reflete, em parte, a apreciação cambial observada no período e a própria ação da política monetária, podendo ter efeitos benéficos sobre a variação futura dos preços ao consumidor, desde que sejam mantidas as taxas reduzidas observadas recentemente. A intensidade desses repasses dependerá, naturalmente, das condições prospectivas de demanda e das expectativas dos formadores de preços em relação à trajetória futura da inflação.
 
14. O núcleo do IPCA por exclusão de preços monitorados e de alimentos no domicílio apresentou forte desaceleração em março, em virtude de ter se dissipado o efeito da alta das mensalidades escolares localizada em fevereiro. O valor registrado em março dá continuidade a uma tendência de desaceleração observada nos resultados recentes dessa medida de núcleo, quando depurada também do impacto pontual das mensalidades escolares em fevereiro. Os núcleos por médias aparadas com e sem suavização, por seu turno, aceleraram-se em relação aos resultados de fevereiro. O núcleo por exclusão segue a tendência de desaceleração por não considerar as fortes altas nos preços monitorados verificadas recentemente, enquanto os núcleos por médias aparadas apresentam aceleração pelo fato de incorporarem parcialmente itens afetados por variações sazonais. Ao longo do primeiro trimestre, a tendência subjacente de inflação indicada pelo conjunto das medidas de núcleo continuou em patamar elevado em relação à trajetória de metas, em que pese a desaceleração observada em relação ao último trimestre de 2004.
 
15. Em fevereiro, a produção industrial apresentou retração pelo segundo mês consecutivo, na série dessazonalizada, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora esse resultado tenha contrariado o que sinalizavam os indicadores antecedentes e coincidentes da produção industrial,  não é surpreendente que ocorra alguma acomodação, em função dos elevados níveis de atividade observados no final do ano. Além disso, fatores setoriais específicos, entre os quais o atraso na colheita de cana-de-açúcar e a redução da carga processada de petróleo, podem estar viesando o resultado de fevereiro em relação à tendência para o desempenho da indústria, pois o eventual retorno desses setores à normalidade ensejaria uma correção do impacto temporariamente negativo que possam ter tido sobre o nível de produção agregado. A queda da produção em fevereiro pode também estar refletindo flutuações inerentes a séries submetidas a procedimentos de dessazonalização na presença de feriados móveis. Conforme destacado nas Notas da reunião de março do Copom, a economia continua mostrando sinais de expansão, mas, previsivelmente, em ritmo menos intenso do que o registrado ao longo de 2004. Considerando-se uma série mais estável, de médias móveis trimestrais, que suaviza efeitos das variações mensais dessazonalizadas, a indústria vem mantendo os elevados níveis de produção verificados nos meses recentes. Os indicadores antecedentes e coincidentes sinalizam expansão da produção industrial em março.
 
16. Em termos de composição da atividade industrial, os bens de consumo apresentaram expansão, no critério de médias móveis trimestrais, na comparação com janeiro. O destaque foi o comportamento dos bens de consumo duráveis, com expansão de 3,2%, impulsionada pelo forte crescimento da produção de itens específicos direcionados para exportação, como celulares e automóveis, enquanto os bens de consumo semiduráveis e não-duráveis apresentaram variação inferior, de 0,84%. Os demais itens registraram desaceleração. O padrão observado na margem em fevereiro, em que os bens de consumo duráveis ainda sustentam forte desempenho, enquanto itens mais sensíveis à renda perdem dinamismo e chegam a apresentar queda nas séries mensais dessazonalizadas, não parece consistente com a fase atual do ciclo econômico. Dada a evolução positiva no mercado de trabalho e na renda registrada nos últimos meses, e a postura de política monetária adotada nesse mesmo período, não seria natural esperar que se revertesse a tendência de mudança na composição da atividade na economia, com o crescimento econômico sendo sustentado cada vez mais pelos setores mais dependentes da renda. Alguns dos fatores setoriais específicos que, conforme mencionado acima, impactaram negativamente a produção industrial de fevereiro, recaíram particularmente sobre categorias de uso mais dependentes da renda, dificultando a atualização da leitura da tendência não só para o agregado mas também para a composição da atividade fabril. Mais observações serão, assim, necessárias para caracterizar possíveis mudanças no padrão da atividade industrial.
 
17. No mercado de trabalho, seguindo o padrão sazonal observado em anos anteriores, a taxa de desocupação aumentou pelo segundo mês consecutivo, passando de 10,2% em janeiro para 10,6% em fevereiro, continuando a registrar valores inferiores aos dos mesmos meses do ano passado. O número de ocupados apresentou ligeira queda entre janeiro e fevereiro, enquanto a massa salarial e o rendimento médio real cresceram nesse período. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), dessazonalizados pelo Banco Central, indicam que o emprego industrial segue na trajetória de expansão continuada que se verifica desde dezembro de 2003, enquanto a massa salarial real na indústria manteve-se estável em fevereiro em relação a janeiro, mas em nível muito acima do observado em fevereiro de 2004. Já os dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) relativos ao número de pessoas contratadas no mercado formal indicam que houve aumento de 6,4% nos dois primeiros meses do ano.
 
18. As vendas no comércio, após terem registrado expansão expressiva ao longo de 2004, vêm apresentando sinais de acomodação nos dois últimos meses. Em fevereiro, as vendas  apresentaram queda de 3,2%, segundo dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, dessazonalizados pelo Banco Central. Esse comportamento no mês pode ter sido influenciado pelo mesmo problema de dessazonalização aventado em relação à produção industrial. O destaque positivo ficou para o grupo móveis e eletrodomésticos, com expansão de 0,7%, enquanto os demais apresentaram contração. Pelo critério das médias móveis trimestrais, as vendas continuaram a crescer, centradas na expansão em móveis e eletrodomésticos, enquanto nos demais itens houve recuo. Esse contraste entre os desempenhos das vendas de bens de consumo duráveis e não duráveis é similar ao observado na produção industrial, e está igualmente em dessintonia com o que se esperaria na fase atual do ciclo econômico. Tal como no caso da produção industrial, mais observações serão necessárias para caracterizar eventuais mudanças no padrão de evolução das vendas no comércio.
 
19. Conforme destacado repetidamente nas Notas das últimas reuniões do Copom, em função da forte expansão na atividade desde o fim de 2003, um foco importante de preocupação em relação à dinâmica prospectiva da inflação continua sendo o desempenho da oferta agregada nos próximos trimestres. A esse respeito, a utilização da capacidade instalada, segundo dados da CNI, dessazonalizados pelo Banco Central, voltou a registrar acomodação em fevereiro, para 81,9%, indicando possivelmente a maturação dos novos investimentos ocorridos nos últimos meses, assim como a acomodação do nível de atividade. Apesar da evolução recente, o índice ainda se encontra em patamar historicamente elevado. O indicador de investimento representado pela absorção de bens de capital apresentou crescimento acumulado de 2,8% nos dois primeiros meses do ano, na série dessazonalizada. Em função da forte expansão observada no investimento em 2004, é de se esperar que haja uma redução no seu ritmo de crescimento à medida que a comparação passe a ser feita em relação a bases mais elevadas.
 
20. No comércio exterior, os superávits expressivos foram mantidos em março, reforçando perspectivas mais favoráveis que as anteriormente antecipadas para o ano. As exportações e as importações continuaram a expandir-se a taxas elevadas nos três primeiros meses do ano, em relação a igual período do ano anterior. No acumulado de doze meses até março de 2005, as exportações cresceram 31,0% em valor, em relação aos doze meses anteriores. No mesmo critério de comparação, as importações vêm se expandindo à taxa de 30,3%, respondendo à forte expansão da demanda doméstica. Portanto, nesse critério, tanto importações como exportações cresceram a taxas ligeiramente inferiores àquelas registradas em fevereiro. O saldo comercial totalizou US$35,9 bilhões nos últimos doze meses, o que representa uma expansão de 32,2%, em relação aos doze meses encerrados em março de 2004. Em termos de volume, na comparação do bimestre janeiro/fevereiro com o mesmo período do ano anterior, as exportações de manufaturados continuam sendo o item a apresentar maior taxa de crescimento. O bom desempenho dos saldos comerciais proporcionou superávit em transações correntes de US$12,7 bilhões no período de doze meses encerrado em março, equivalente a 2,1% do PIB. A demanda externa continua, portanto, contribuindo para a expansão da economia. 
 
21. As condições dos mercados internacionais de capitais continuaram voláteis desde a reunião de março do Copom. Além das incertezas sobre a política de juros do Federal Reserve (Fed), a instabilidade nos mercados esteve associada ao aumento na aversão ao risco no mercado de crédito dos Estados Unidos, em função de dificuldades enfrentadas por algumas empresas de grande porte, que poderiam ter como desdobramento realocações de portfólio desfavoráveis a posições em países emergentes. Em conseqüência, o prêmio de risco-Brasil apresentou elevada volatilidade, em patamares mais altos em relação aos meses recentes. A moeda brasileira, por seu turno, após apresentar forte depreciação em meados de março, voltou a se apreciar, tendo retornado  aos níveis registrados em fevereiro. Conforme destacado nas Notas das reuniões passadas do Copom, a disponibilidade de liquidez internacional e a estabilidade dos mercados continuam condicionadas ao quadro macroeconômico nos países industrializados, especialmente nos Estados Unidos, e à possível resposta da política monetária do Fed à sua evolução. Apesar da maior volatilidade verificada nas últimas semanas, o Copom continua atribuindo baixa probabilidade a um cenário de deterioração pronunciada nos mercados financeiros internacionais em função de mudanças abruptas na condução da política monetária norte-americana.  
 
22. Os preços internacionais do petróleo, após terem flutuado em níveis sem precedentes no final de março e no início de abril, vêm registrando, recentemente, ligeiro recuo. O comportamento dos preços continua refletindo informações acerca das condições de demanda e do estoque disponível de petróleo nos principais países consumidores, assim como possíveis restrições na oferta por parte dos países produtores. Apesar do ligeiro recuo observado desde a reunião de março do Copom, os preços internacionais da gasolina mantiveram-se acima dos preços praticados no mercado doméstico. A persistência desses patamares elevados no futuro continua cercada de um grau razoável de incerteza, que levou o Comitê a manter em seu cenário básico a hipótese de que não haverá reajuste nos preços domésticos dos combustíveis em 2005. No entanto, é importante assinalar que esse elemento desfavorável do quadro externo passou a representar um risco cada vez maior para a trajetória futura da inflação, conforme já destacado nas Notas da reunião de março do Copom. Como ressaltado em ocasiões anteriores, ainda que essa escalada recente não se traduza em aumento doméstico no preço da gasolina, ela tem efeitos sobre os preços de insumos derivados do petróleo e sobre as expectativas dos agentes econômicos. 
 
23. Desde a reunião de março do Copom, a mediana das expectativas coletadas pela Gerin para a variação do IPCA em 2005 voltou a deteriorar-se, passando de 5,77% para 6,10%. Conforme destacado nas Notas das últimas reuniões do Copom, as expectativas para a inflação de 2005 foram pouco sensibilizadas, nos últimos meses, por desenvolvimentos favoráveis que poderiam contribuir para arrefecer as pressões inflacionárias, tais como os sinais de desaceleração no ritmo de crescimento da economia, a queda na inflação dos produtos industriais no atacado, a reavaliação das expectativas de mercado para a trajetória da taxa de câmbio e a postura mais restritiva de política monetária.
 
24. O crescimento marginal das expectativas para 2005, contudo, está ligado principalmente a reajustes de alguns preços administrados em valor maior do que o esperado, como foi o caso do item ônibus urbano, às expectativas de inflação para abril e à evolução menos favorável do cenário internacional. O impacto de condições climáticas adversas sobre a dinâmica de curto prazo dos preços dos alimentos também contribui para elevar as expectativas de inflação para o ano, muito embora o efeito de choques desse tipo sobre o nível geral de preços – e, portanto, sobre a inflação acumulada – tenda a se reverter à medida que sejam restauradas condições normais de oferta na agricultura. As expectativas para a inflação doze meses à frente também se deterioraram nas últimas semanas, mas o fizeram aproximadamente na mesma medida em que foram revistas para cima as taxas esperadas para o segundo trimestre de 2005, sugerindo que a postura monetária mais restritiva tem evitado que as pressões inflacionárias de curto prazo se propaguem para horizontes mais longos. Essa indicação de ancoragem das expectativas de inflação é corroborada pela estabilidade da inflação esperada para 2006.
 
25. A projeção de inflação do cenário de referência, que pressupõe a manutenção da taxa Selic em 19,25% a.a. e da taxa de câmbio em R$2,60 ao longo de todo o horizonte de projeção, apresentou elevação em relação à reunião anterior do Copom, situando-se, portanto, acima do objetivo de 5,1% para o ano. Essa deterioração deveu-se a uma conjunção de fatores, entre os quais a revisão das projeções para preços administrados, e refletiu-se, principalmente, em uma revisão para cima da inflação projetada para abril. As projeções baseadas no cenário de mercado, que incorpora as trajetórias de câmbio e da taxa Selic esperadas pelo mercado no período imediatamente anterior à reunião do Copom, situam-se acima das projeções do cenário de referência, e também se elevaram em relação ao mês anterior, pelas mesmas razões apontadas no caso do cenário de referência. Para 2006, houve uma melhora nas projeções, estando a do cenário de referência abaixo e a do cenário de mercado acima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o próximo ano. A melhora da projeção para 2006 deve-se ao maior prazo para que se consolidem os efeitos da postura de política monetária adotada desde setembro de 2004.
 
26. O Copom também considerou as projeções de inflação para horizontes situados entre dezembro de 2005 e dezembro de 2006, como os períodos de doze meses que se encerram em março de 2006, junho de 2006 e setembro de 2006. Trata-se de horizontes cujos resultados serão mais sensíveis às decisões correntes de política monetária do que os do ano calendário de 2005, sendo, ao mesmo tempo, períodos cobertos por projeções de inflação mais confiáveis do que as já disponíveis para o ano calendário de 2006. A projeção do cenário de referência para o período de doze meses que se encerra em março de 2006 encontra-se acima do seu valor na trajetória de metas obtida pela interpolação do objetivo de inflação de 5,1% para 2005 e da meta de 4,5% estabelecida pelo CMN para 2006. Essa projeção encontra-se também acima da projeção correspondente efetuada por ocasião da reunião de março do Copom. Já as projeções do cenário de referência para os períodos de doze meses que se encerram em junho de 2006 e em setembro de 2006 encontram-se abaixo dos valores na trajetória de metas que dizem respeito a esses mesmos períodos. A projeção do cenário de referência para os doze meses que se encerram em junho de 2006 encontra-se no mesmo valor da reunião de março, e a projeção para os doze meses que se encerram em setembro de 2006 situa-se abaixo da projeção correspondente efetuada na reunião de março do Copom.
 
27. O Copom reafirma o diagnóstico expresso nas Notas das reuniões de fevereiro e de março de que os efeitos do ciclo de aumento da taxa de juros básica iniciado em setembro de 2004 já se fazem sentir tanto nos resultados da inflação no primeiro trimestre do ano como nas projeções de inflação para horizontes mais longos realizadas pelo Banco Central e pelos analistas do setor privado. A atividade econômica continua em expansão, mas a um ritmo menor e mais condizente com as condições de oferta, de modo a não resultar em pressões significativas sobre a inflação. No entanto, tal como na reunião de março, o Comitê identificou a existência de fatores que  aumentaram os riscos a que está submetido o processo de convergência da inflação para a trajetória de metas. Esses riscos estão associados à persistência de focos localizados de pressão na inflação corrente e à deterioração no cenário externo, com os preços do petróleo em níveis elevados e a possibilidade de permanência de condições voláteis nos mercados internacionais de capitais.
 
28. O Copom também reitera que, no regime de metas para a inflação, orienta suas decisões de acordo com os valores futuros projetados para a inflação, analisando diversos cenários alternativos para a evolução das principais variáveis que determinam a dinâmica dos preços. A manutenção de riscos elevados para a inflação de curto prazo tende a aumentar a incerteza em relação ao comportamento futuro da inflação, dificultando tanto a avaliação de cenários pela autoridade monetária quanto o processo de coordenação de expectativas dos agentes privados. Nesse ambiente, uma maior incerteza determinada por fatores de risco que, em função de suas características, poderão em alguma medida se reverter em breve, poderia afetar de forma mais duradoura as expectativas de inflação. Cabe à política monetária, portanto, manter-se especialmente vigilante para evitar que pressões detectadas em horizontes mais curtos se propaguem para horizontes mais longos.
 
29. Dados os riscos de curto prazo e sua persistência nos últimos meses, o Comitê avaliou que somente a perspectiva de manutenção da taxa de juros básica por um período suficientemente longo de tempo no nível estabelecido em sua reunião de março não proporcionaria condições adequadas para assegurar a convergência da inflação para a trajetória de metas. Diante disso, o Copom decidiu, por unanimidade, aumentar a meta para a taxa Selic para 19,50% a.a., sem viés, e acompanhar atentamente a evolução do cenário prospectivo para a inflação até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na estratégia de política monetária implementada desde setembro de 2004. Como ressaltado também nas Notas da reunião de março, é necessário que a Autoridade Monetária esteja pronta a adequar às circunstâncias o ritmo e a magnitude do processo de ajuste da taxa de juros básica, caso venham a exacerbar-se os fatores de risco acompanhados pelo Comitê.
 
30. Ao final da reunião, foi registrado que o Comitê voltaria a se reunir em 17 de maio de 2005 para as apresentações técnicas e, no dia seguinte, para deliberar sobre a política monetária, conforme estabelecido pelo Comunicado 12.631, de 29.10.2004.
 
 
SUMÁRIO DOS DADOS ANALISADOS PELO COPOM
 
Atividade econômica
 
31. O volume de vendas do comércio varejista registrou queda de 3,2% em fevereiro, em relação ao mês anterior, segundo dados da PMC do IBGE, de abrangência nacional, ajustados sazonalmente pelo Banco Central. Das atividades que integram o índice geral de vendas, apenas o segmento de móveis e eletrodomésticos registrou expansão no período, de 0,7%. O segmento de automóveis, motos, partes e peças, que não integra a composição do índice geral, recuou 4,8%. Ressalte-se que, apesar da variação negativa, o resultado do comércio no primeiro bimestre do ano mostrou-se favorável, embora mostrando acomodação na tendência de crescimento. Ainda sob os efeitos da acentuada expansão nas vendas registrada em dezembro, a média móvel trimestral registrou nível recorde em fevereiro e, nos últimos doze meses, o setor registrou expansão de 8,9%.
 
32. Em março, os dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) revelaram altas de 2,6% no número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e de 1,5% nas consultas ao sistema Usecheque, em comparação ao observado no mês anterior, após ajuste sazonal. No ano, até março, comparativamente ao mesmo período de 2004, esses indicadores mostraram aumentos de 6,3% e 4%, respectivamente.
 
33. A pesquisa mensal da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio SP) registrou queda mensal de 3% do Índice de Confiança do Consumidor (ICC) em abril, resultado que decorreu dos recuos de 4,1% no Índice das Condições Econômicas Atuais (Icea) e de 2,5% no Índice de Expectativas do Consumidor (IEC).
 
34. O Índice Nacional de Expectativas do Consumidor (Inec), calculado trimestralmente pela CNI, de abrangência nacional, revelou queda de 2,2% em março, ante o de dezembro de 2004, influenciado pela piora nas expectativas quanto à evolução do emprego e da inflação no decorrer deste ano.
 
35. Em relação aos indicadores de investimento, a produção de insumos da construção civil, a fabricação doméstica de bens de capital e as importações desses bens mostraram recuos respectivos de 1,3%, 3,1% e 6,9% em fevereiro, após ajuste sazonal. A expansão da produção doméstica de bens de capital desacelerou no primeiro bimestre do ano, resultado que refletiu a expressiva queda da produção de máquinas e peças agrícolas, principalmente pela diminuição das encomendas dos produtores da região Sul do país em razão dos impactos negativos em suas plantações da prolongada estiagem que afetou a região durante o verão.   
 
36. A divulgação parcial e preliminar da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação, realizada pela FGV, revelou que a percepção dos empresários relativamente à situação geral dos negócios em abril de 2005, semelhante a apurada na pesquisa realizada em abril de 2004. Quanto a expectativas para os próximos meses, discreto recuo foi observado no nível de demanda esperado das empresas. Assim, os indicadores relativos à evolução da produção e do emprego industrial seguem mostrando comportamentos favoráveis. Destaque-se, contudo, que, em relação à pesquisa realizada em janeiro de 2005, aumentou a proporção das respostas que consideraram excessivos os atuais níveis de estoques.
 
37. Segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do IBGE, a produção industrial brasileira diminuiu 1,2% em fevereiro, na série dessazonalizada, em relação à do mês anterior. A retração da atividade deveu-se ao recuo de 1,1% da indústria de transformação, enquanto a produção extrativa mineral permaneceu praticamente estável na comparação mensal. Destacaram-se na atividade fabril de fevereiro, as variações negativas do setor sucroalcooleiro – queda de 25,4% na fabricação e refino de açúcar, e de 5,6% na produção de álcool, dados dessazonalizados – bem como do refino de petróleo, -4,6% após ajuste sazonal. Tais desempenhos tiveram influência significativa para o resultado do mês e foram ocasionados por restrições relacionadas ao processo produtivo, que tendem a ser superadas no próximo mês.
 
38. A análise da produção industrial por atividades, após o ajuste sazonal, revelou que o decréscimo na produção em fevereiro ocorreu em onze das 23 atividades, e em três das quatro categorias de uso. Dentre as atividades, destacaram-se as reduções em farmacêutica, alimentos, bebidas, refino de petróleo e produção de álcool. Por categorias, a produção de bens de consumo duráveis foi a única com resultado positivo na comparação com o mês anterior, de 11,8%, influenciada principalmente pelo aumento na fabricação de veículos automotores e de telefones celulares. A produção de bens de consumo semi e não-duráveis recuou 4,3% em fevereiro, após atingir patamar recorde em janeiro.
 
39. Estatísticas da CNI sobre o desempenho da indústria de transformação mostraram crescimento de 1% nas vendas reais e queda de 0,2% nas horas trabalhadas na produção em fevereiro, em relação às do mês anterior, nas séries ajustadas sazonalmente pelo Banco Central. Em relação aos índices observados em fevereiro de 2004, as vendas reais aumentaram 5,9% e as horas trabalhadas 7,2%. O nível de utilização da capacidade instalada alcançou 81,9% em fevereiro, com recuo mensal de 0,3% na série dessazonalizada e aumento de 1,1% ante o nível observado no mesmo mês de 2004.
 
40. Indicadores referentes à atividade industrial sinalizaram tendência de recuperação em março, na série dessazonalizada, depois do recuo observado em fevereiro. Dentre esses, destaca a produção de autoveículos, a maior desde janeiro de 1979, e a variação positiva no volume de expedição de papelão ondulado.
 
Mercado de trabalho
 
41. O índice de emprego formal cresceu 0,2% em fevereiro, ante o de janeiro, após ajuste sazonal, de acordo com informações do MTE. Comparativamente ao índice de fevereiro de 2004, houve expansão de 6,2% no emprego formal, com a criação de 1.473 mil empregos líquidos no período, destacando-se que o emprego teve maior crescimento na indústria de transformação.
 
42. Segundo a PME, realizada pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do país, a taxa de desocupação atingiu 10,6% em fevereiro, ante 10,2% no mês anterior e 12% no mesmo mês de 2004. O acréscimo mensal na taxa de desocupação obedeceu ao componente sazonal, com aumento mensal de 5% no número de pessoas desocupadas e recuo de 0,3% no número de ocupados. A População Economicamente Ativa (PEA), estimada em 21,7 milhões de pessoas, apresentou variação mensal de 0,2% em fevereiro.
 
43. No setor industrial, segundo os índices da CNI ajustados sazonalmente pelo Banco Central, o pessoal empregado evoluiu 0,2% e a massa salarial real ficou estável em fevereiro, ante os do mês anterior. Em relação aos índices observados em fevereiro de 2004, a massa salarial real e o contingente de pessoal empregado cresceram 8,1% e 6,8%, respectivamente.
 
 
Crédito e inadimplência
 
44. O saldo das operações de crédito do sistema financeiro com recursos livres cresceu 2,1% em março. O saldo das operações com pessoas físicas cresceu 3,5%, principalmente pelo comportamento do crédito pessoal, estimulado pela expansão das operações consignadas em folha de pagamento. Nas carteiras destinadas a pessoas jurídicas, com recursos domésticos, o saldo cresceu 0,9% e, nas operações referenciadas em moeda estrangeira, houve expansão de 1,9%.
 
45. A taxa média de juros incidente sobre as operações de crédito com recursos livres passou de 47,5% a.a. em fevereiro para 47,8% a.a. em março. Nas operações com pessoas jurídicas, observou-se acréscimo de 0,5 p.p. na taxa média, para 32,9% a.a., enquanto a taxa média das operações com pessoas físicas ficou estável em 64% a.a.
 
46. A taxa de inadimplência das operações de crédito livre contratadas com pessoas físicas, em março, alcançou 12,7%, constituindo incremento de 0,3p.p. em relação ao mês anterior. Em relação aos créditos contratados com pessoas jurídicas, a taxa de inadimplência manteve-se praticamente estável no período: 3,8%, ante 3,7% no mês anterior.
 
47. A taxa líquida de inadimplência no comércio, calculada pela ACSP, diminuiu de 7% em fevereiro para 6,4% em março, ficando praticamente no mesmo nível observado em março de 2004, 6,5%. No mês, o número de novos registros negativos aumentou 21,6%, mas o crescimento de registros cancelados foi superior, 23,2%. No ano, até março, a taxa média de inadimplência situou-se em 6%, ante 6,1% no primeiro trimestre de 2004. A proporção de cheques devolvidos por insuficiência de fundos, em relação ao total de cheques compensados no país, alcançou a 6,3% em março, constituindo-se em novo nível recorde da série.
 
Ambiente externo
 
48. De acordo com os principais organismos internacionais, o crescimento econômico mundial foi robusto em 2004, apresentando a maior taxa de expansão dos últimos quinze anos, impulsionado pelos Estados Unidos e pela China. Para 2005, a previsão é de crescimento menor, sustentado, embora desbalanceado. Estados Unidos e China continuarão a liderar o crescimento global, enquanto Japão e Área do Euro terão desempenho modesto, aquém das potencialidades das duas regiões.
 
49. O volume do comércio mundial registrou expansão de 9,9% em 2004, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), com previsão de acréscimo de 7,4% em 2005. Estimativas semelhantes foram divulgadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que estima crescimento do comércio de 6,5% em 2005, ante 9% no ano passado. No que diz respeito ao fluxo líquido de capitais para as economias emergentes, o Instituto de Finanças Internacionais (IFI) prevê aumento nestes fluxos, em especial de investimento estrangeiro direto. Contudo, há riscos nesse cenário, relacionados aos altos preços do petróleo, aumento das taxas de juros acima das expectativas e forte desaceleração da economia chinesa.
 
50. Os primeiros resultados deste ano vêm confirmando o prognóstico divulgado pelos organismos internacionais para o ano. Nos Estados Unidos, a produção industrial apresentou crescimento mensal de 0,3% em março, mesmo ritmo observado em fevereiro, com utilização da capacidade instalada de 79,4%, 0,1 p.p. acima do nível alcançado em fevereiro, patamar mais alto desde dezembro de 2000. As expectativas empresariais norte-americanas, embora decrescentes, continuam apontando expansão da economia. O nível atual do indicador do ISM para a manufatura (PMI) é compatível com taxa de crescimento do PIB igual a 4,5%, enquanto para os serviços (BAI) é compatível com expansão do PIB de 5%. No Japão, a produção industrial registrou declínio de 2,3% em março, com as expectativas empresariais (Tankan) em declínio, mesma tendência apresentada na Alemanha, França e Itália.
 
51. A despeito das pressões advindas da elevação dos preços das commodities, em especial as metálicas e petróleo, não há aceleração inflacionária nas principais economias, com os índices de preços ao consumidor dentro dos limites estabelecidos pelas autoridades monetárias.
 
52. Nos mercados financeiros internacionais, o retorno dos títulos de dez anos do Tesouro norte-americano, após apresentarem tendência crescente ao final de janeiro, reassumiram trajetória descendente a partir do fim de março, com grande volatilidade no período. Esse movimento influenciou o mercado da dívida de economias emergentes, que também apresentou volatilidade e relativa deterioração no início de abril.
 
Comércio exterior e itens do balanço de pagamentos
 
53. Todos os resultados da balança comercial constituíram recordes históricos para meses de março, primeiro trimestre do ano e períodos de doze meses. No mês, a balança comercial registrou superávit de US$3,3 bilhões, com as exportações totalizando U$9,3 bilhões, crescimento de 22%, e as importações, U$5,9 bilhões, acréscimo de 15,5%, comparativamente aos valores médios diários ocorridos em igual mês de 2004. Em doze meses, o saldo comercial e a corrente de comércio alcançaram, respectivamente, US$35,9 bilhões e US$167,1 bilhões. Em abril, onze dias úteis, o saldo comercial totalizou US$2,3 bilhões, expansão de 42% nas exportações e de 12,2% nas importações, ante os valores médios observados em abril do ano anterior.
 
54. No que se refere às exportações, houve crescimento das quantidades embarcadas, ao mesmo tempo em que ocorreram aumentos de preços externos de importantes produtos da pauta de exportação. Esse comportamento vem sendo acompanhado por significativa ampliação de itens com pequena participação, confirmando o processo de diversificação da pauta. Destaque-se, adicionalmente, a expansão das vendas para todas as regiões, inclusive para mercados com pequena participação nas exportações brasileiras.
 
55. O aumento das importações em março e no primeiro trimestre do ano decorreu do crescimento de todas as categorias de produtos, destacando-se, no trimestre, os aumentos de 41,6% em combustíveis e lubrificantes, 27,4% em bens de capital, 26,6% em bens de consumo não-duráveis e 17,5% em matérias-primas e bens intermediários, consideradas as médias diárias em relação às de igual período do ano anterior.
 
56. Ao final de março, as reservas internacionais situaram-se em US$62 bilhões e as reservas líquidas ajustadas, conforme conceito do Banco Central, em US$39,5 bilhões, com acréscimos respectivos de US$2,9 bilhões e de US$4,7 bilhões ante os saldos registrados no final de fevereiro.
 
Mercado monetário e operações de mercado aberto
 
57. Nos dias que se seguiram à reunião do Copom de março, a curva de juros futuros deslocou-se para cima, ajustando-se à decisão do Comitê, à elevação das expectativas de inflação e às apreensões quanto à evolução do cenário externo. A divulgação da ata da reunião, em 24/3, e os resultados do IPCA-15 reverteram parcialmente esse movimento, especialmente nos prazos mais curtos. Daí em diante, os índices de inflação corrente acima do esperado e seus núcleos mais elevados pressionaram os juros futuros, e os anúncios, pelo IBGE, dos dados de produção industrial e de vendas no varejo atuaram no sentido oposto. A volatilidade do cenário externo e o aumento do grau de aversão a risco afetaram mais fortemente o trecho longo da curva de juros. Com isso, a elevação da curva de juros no período entre as reuniões do Copom de março e de abril foi mais acentuada nos prazos mais longos. Entre 16 de março e 20 de abril, as taxas de juros de um mês e de seis meses elevaram-se em 0,39 p.p. e 0,48 p.p., respectivamente. As taxas de um, de dois e de três anos, por sua vez, subiram 0,58 p.p, 0,68 p.p. e 0,85 p.p. A taxa real de juros, medida pelo quociente entre a taxa nominal de um ano e a expectativa de inflação para os próximos doze meses, elevou-se de 12,42% para 12,86%.
 
58. Os instrumentos cambiais com vencimento no período não foram rolados pelo Banco Central. Assim, o resgate líquido de instrumentos cambais, incluídos os vencimentos de juros, foi de cerca de US$224 milhões em abril e de US$14,7 bilhões nos quatro primeiros meses do ano.
 
59. Nos leilões realizados entre as reuniões do Copom de março e de abril, o Tesouro Nacional captou R$21,9 bilhões com a venda de LTN de vencimento em outubro de 2005, abril e julho de 2006 e janeiro de 2007.  No mesmo período, os cinco leilões de NTN-F com vencimento em janeiro de 2008 e em janeiro de 2010 arrecadaram R$500,5 milhões. Foram efetuados, ainda, dez leilões de LFT com vencimento em 2007, 2008 e 2009, sendo cinco de venda e cinco de troca. As vendas de LFT totalizaram R$18,1 bilhões, e as trocas, R$2,1 bilhões.
 
60. Com o propósito de reduzir o excedente de liquidez bancária previsto para o trimestre seguinte, o Banco Central realizou, em 23/3, venda de LTN com vencimento em julho de 2005 liquidada mediante a compra de LTN com vencimento em abril de 2005.  Similarmente, em 6/4, 13/4 e 20/4, vendeu LTN com vencimento em outubro de 2005, liquidando as vendas com a compra de LTN de vencimento em julho de 2005. Essas operações totalizaram R$5,1 bilhões.
 
61. Na administração da liquidez corrente, o Banco Central efetuou operações compromissadas semanais prefixadas, com prazo de três meses, e pós-fixadas, com prazo de um mês, bem como operações de nivelamento da liquidez ao fim do dia. Além disso, interveio em vinte ocasiões por meio de operações compromissadas de curtíssimo prazo, sendo sete tomadoras de recursos overnight, três tomadoras de recursos por prazo entre dois e cinco dias úteis e dez doadoras de recursos overnight. O excesso médio de liquidez bancária esterilizado por operações com prazo de até trinta dias foi de R$19,2 bilhões e, por operações com prazo de três meses, de R$39,9 bilhões.
 
62. Em março, devido à colocação líquida de R$14,5 bilhões em títulos e à apropriação de juros, o estoque da Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) elevou-se em 3,3%. O percentual da dívida exposta à variação cambial voltou a registrar redução, de 6,0%, no final de fevereiro, para 4,9%, no final de março, em razão do resgate líquido de títulos cambiais e da contratação de swaps em que o Banco Central assumiu posição ativa em câmbio.