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PROER - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional

 

Programa estimula a reestruturação de bancos

Em vários países do mundo ocorre o processo de fusões de bancos. Há, nessas instituições, uma imperiosa necessidade de crescerem em tamanho como forma de concorrer com outras corporações participantes do cenário financeiro internacional. Enquanto no comércio a globalização da economia se dá de forma lenta e por meio dos blocos econômicos, o setor financeiro mundial já é uma aldeia global. Mas, por que os países do mundo vivem essa necessidade? Basicamente pela grande transformação dos mercados financeiros, que retirou dos Estados Unidos o controle autônomo de suas moedas internas. A moeda hoje é um bem global. Segundo estimativas, US$11trilhões trafegam incessantemente de um lado para outro do planeta em busca de bons lucros, não importa em qual idioma.

O Brasil também está sujeito a esse redemoinho. É o efeito da globalização mexendo com a nossa realidade. Nosso país tem o maior e, provavelmente, o mais complexo sistema financeiro na América Latina, cujo desenvolvimento, nos últimos trinta anos, foi marcado pelo processo inflacionário. As reformas institucionais e as grandes mudanças legais e normativas nesse período foram determinadas em grande medida pelo processo de combate à inflação. O longo período de convivência com o processo inflacionário permitiu que ganhos proporcionados pelos passivos não remunerados, como os depósitos à vista e os recursos em trânsito, compensassem ineficiências administrativas e, até mesmo, concessões de crédito de liquidação duvidosa.

Diante do novo quadro de estabilidade de preços, desejado pela sociedade brasileira após várias tentativas frustradas, verificou-se uma total incapacidadede de nossas instituições financeiras em promover espontâneamente os ajustes necessários para sua sobrevivência nesse novo ambiente econômico. Num universo com 265 bancos, com mais de 16 mil agências, 11 mil postos de atendimento adicionais (sem contar as caixas econômicas, com 1.800 agências - veja quadro abaixo), dezenas de bancos quebraram, gerando enormes custos financeiros e sociais.

INSTITUIÇÕES NO PAÍS
Tipos Sedes Agências no país
fonte: DECAD/DIVIN
Position on 09.01.95
BANCOS COMERCIAIS 35 4.137
BANCOS MÚLTIPLOS 208 11.496
BANCOS DE DESENVOLVIMENTO 6 9
BANCOS DE INVESTIMENTO 16 45
CAIXAS ECONÔMICAS 2 1.829
SOC. COOPERATIVAS 926 -
SOC. DE CRÉD. FINAN. E INVEST. 44 105
SOC. CORRETORAS DE TÍT. E VAL. MOB. 226 360
SOC. CORRETORAS DE CÂMBIO 47 56
SOC. DISTRIBUIDORAS 348 563
SOC. DE INVESTIMENTO 4 0
SOV. DE ARRENDAMENTO MERCANTIL 77 127
SOC. DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO 19 27
FUNDOS DE INVESTIMENTO E DE APLIC. 966 0
ASSOCIAÇÕES DE POUP. EMPR. 2 1
ADMINISTRADORAS DE CONSÓRCIO 463 4.742
T O T A L 3.389 23.497

Intervenção ou reorganização?

Uma crise bancária pode ser comparada a um vendaval. A credibilidade é o aspecto de maior relevância para a indústria bancária. Uma corrida aos bancos pode ser resultante da perda de credibilidade de poucos, mas, certamente, em função do efeito dominó, provocará transtornos graves para todos, inclusive nos setores produtivos da economia. Por outro lado, a solução para problemas dos bancos, baseada nos regimes especiais de intervenção, liquidação e administração especial temporária, previstos em lei, resultam em custo social muito mais elevado do que a ação prévia das autoridades, ao promover a transferência de controle das instituições a outras mais eficientes.

O conjunto composto pela Medida Provisória nº 1.179 e a Resolução nº 2.208, ambas de 3/11/95, implantou o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), que veio para ordenar a fusão e incorporação de bancos a partir de regras ditadas pelo Banco Central. Sua chegada, logo após a crise do Econômico, o 22º banco sob intervenção/liquidação desde o real, implantado em 1º/7/94, não deixa de ser, entretanto, uma forma do governo antecipar-se a outros problemas, e facilitar o processo de ajuste do SFN. Com o Proer, os investimentos e a poupança da sociedade ficam assegurados. Há uma adesão incondicional ao mecanismo de proteção aos depositantes, introduzido pelas resoluções 2.197, de 31/8/95, e 2.211, de 16/11/95, do CMN, evitando que futuros problemas localizados possam afetar todo o sistema, com reflexos na sociedade brasileira.

A edição da Medida Provisória nº 1.182, em 17/11/95, portanto duas semanas após a MP nº 1.179, deu ao Banco Central o aparato legal de que necessitava para conduzir o sistema financeiro a um novo modelo, outorgando-lhe o poder de deixar no sistema somente as instituições que tiverem saúde, liquidez e solidez. O BC viu assim multiplicada a sua responsabilidade perante o país, mas, por outro lado, passou a deter os instrumentos para sanear o sistema.

A partir desse novo instrumental, o Banco Central pode agir preventivamente com mais eficiência. Passa a ser possível transformar em uma exigência formal aquilo que o BC somente usava a título de sugestão. Aliás, o caráter preventivo do Proer foi ressaltado pelo presidente Gustavo Loyola em todas as oportunidades em que falou sobre o assunto. “Não estamos beneficiando o banqueiro A ou B”, disse Loyola em discurso aos membros da Associação Brasileira das Empresas de Leasing (ABEL), no dia 17/11/95, “a preocupação não é favorecer os bancos, mas preservar o sistema e a economia com um todo”. Na definição do ministro da Fazenda, Pedro Malan, a MP 1.182, ao ampliar o leque de poderes do BC, pretende fortalecer o sistema financeiro e proteger os depositantes. Segundo o ministro, o país vai passar por um processo de reorganização societária no segmento financeiro da Economia (acompanhando o que ocorre nos demais países) cuja dinâmica, entretanto, não é possível antecipar mas que, garante ele, “não será traumático”.

A esse respeito, os jornais do dia 19/11 trouxeram o pensamento do vice-presidente do Federal Reserve Board (o Fed - o banco central americano), Marvin Goodfriend: “é muito importante montar um sistema preventivo de crises antes que os problemas aconteçam”. Sua afirmação é sustentada num simples fato: os contribuintes dos Estados Unidos já gastaram US$ 25 bilhões para socorrer o sistema de poupança e empréstimo do país. Mas a previsão do governo é que o problema somente será resolvido com o aporte de mais US$ 100 bilhões.

Também defendem o caráter preventivo do Proer os ex-ministros Mário Henrique Simonsen e Ernane Galvêas. Para Simonsen, o BC necessita ter elementos que “forcem os bancos a se corrigirem”. Lembra ele que o Federal Reserve estabelece nota para cada instituição, de um (empresa em situação de normalidade) a cinco (empresa com elevado grau de risco) Os bancos que recebem nota cinco são obrigados a apresentar imediato plano de reestruturação. Para Galvêas, países como Venezuela, Argentina e México enfrentaram graves problemas com bancos falidos “há precedentes e o BC quer evitar que isso venha a acontecer no Brasil”.

Os poderes da MP 1.182

Em dez artigos, a MP 1.182 cria o conceito de responsabilidade solidária dos controladores também para as instituições financeiras submetidas aos regimes de intervenção ou liquidação extrajudicial, figura que já existia para os casos de Regime de Administração Especial Temporária, além de estender a indisponibilidade aos acionistas controladores e agilizar a possibilidade de desapropriação das ações de bancos em dificuldades, pela União, para fins de posterior privatização. Ficam fora da indisponibilidade os bens considerados inalienáveis ou impenhoráveis descritos na forma da lei, como, por exemplo, ações de governos estaduais, dívidas trabalhistas ou saldos no Fundo de Garantia de Tempo de Serviço.

Caso venha a ser detectada uma situação de insuficiência patrimonial ou financeira, o Banco Central poderá determinar a capitalização da empresa financeira, no valor definido como necessário para o seu soerguimento; a transferência do controle acionário, ou a fusão, incorporação ou cisão. A não implementação das providências no prazo fixado pela autoridade monetária poderá acarretar a decretação do regime especial que for adequado (RAET, intervenção ou liquidação extrajudicial).

Nos casos de intervenção, liquidação extrajudicial ou regime de administração especial temporária, a MP fornece ao Banco Central autonomia para autorizar o interventor, liquidante ou o conselho diretor (quando se tratar de RAET) a alienar ou ceder bens e direitos a terceiros, bem como transferir direitos e obrigações para outra sociedade e proceder à reorganização societária.

Ao instaurar um processo administrativo contra uma instituição financeira, o BC pode afastar, cautelarmente, os indiciados enquanto durar a apuração das responsabilidades. Pode, também, impedir que os administradores indiciados assumam cargos de direção ou administração em empresas financeiras. O BC poderá, ainda, impor restrições às atividades dessa empresa. Se, por exemplo, forem detectados problemas nas operações de câmbio, o BC poderá proibir o banco a operar nesse mercado. Caso o processo administrativo não venha a ser concluído em 120 dias, encerra-se a eficácia da medida cautelar.

A União poderá desapropriar ações de bancos que estiverem em Regime de Administração Especial Temporária. O decreto de desapropriação fixará o prazo para alienação do controle acionário, em cada caso. Essas ações serão colocadas em oferta pública, ficando explícito, porém, que a instituição permanecerá sendo privada, impedindo-se a possibilidade de uma federalização. Mesmo quando encerrado o processo intervencionista, o BC permanecerá com poderes para continuar apurando irregularidades dos controladores da instituição. Criou-se também a possibilidade de um outro banco (ou outra pessoa jurídica) vir a ser escolhido para a execução dessa tarefa.

LIGAÇÃO ENTRE POPULAÇÃO E AGÊNCIAS BANCÁRIAS
Período População(1)
(em mil hab.)
No. de agências (2) Pop/Agências (3)
(3)=(1)/(2)
Fonte: IBGE and BC
Posição em Jun/95
Estimativa da população de acordo com a taxa de crescimento dos últimos dois anos.
1980 118.561 13.088 9.059
1981 121.213 14.379 8.430
1982 123.885 16.404 7.552
1983 126.573 16.701 7.579
1984 129.273 17.016 7.597
1985 131.978 17.757 7.432
1986 134.653 17.098 7.875
1987 137.268 16.525 8.307
1988 139.819 19.645 7.117
1989 142.307 18.357 7.752
1990 144.724 19.996 7.238
1991 147.074 17.942 8.197
1992 149.358 17.825 8.379
1993 151.572 17.442 8.690
1994 153.724 18.223 8.436
1995 154.835 18.151 8.530

Desafio ao Real

O fantasma de uma crise bancária no Brasil é hoje a principal preocupação da equipe econômica, constituindo verdadeiro desafio ao governo. É de tal ordem importante o esforço desenvolvido para o fortalecimento do sistema financeiro que, pode-se afirmar, seu sucesso é a garantia de sucesso do Plano Real. Os bancos, afinal, são fundamentais num processo de crescimento sustentado da economia — a principal meta do real. Na entrevista do dia 17 de novembro em São Paulo, citada anteriormente, o presidente Gustavo Loyola foi enfático: “desafio os críticos do programa de estímulo às fusões a darem um exemplo de país que tenha crescido com estabilidade, de forma sustentada, sem um sistema financeiro forte”. Loyola argumentou também que toda a economia do país gira em torno de bancos. Em vários países que passaram por crise inflacionárias, a poupança fugiu para ativos reais, mas não no Brasil.

Sobre a importância da saúde do sistema financeiro para qualquer país, o professor Mário Henrique Simonsen lembra um momento amargo da história americana: “não podemos esquecer o exemplo da recessão de 1930 nos Estados Unidos, que acabou virando depressão econômica justamente porque o BC norte-americano não evitou uma crise bancária”. Simonsen acrescenta que, após a intervenção do Banco Central no Banco Econômico, em agosto, não havia outra coisa a ser feita a não ser criar mecanismos capazes de ensejar soluções de mercado para bancos em dificuldades. Para ele, “os incentivos que o governo está dando são muito poucos, uma vez que não há quantidade importante de recursos públicos envolvidos, está sendo dada aos bancos a possibilidade de reconhecer como prejuízo o que é efetivamente prejuízo, descontando isso dos balanços em cinco anos”.

Se nos anos 30 os Estados Unidos enfrentaram dramáticos problemas na área dos bancos, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, garante que no Brasil não há a menor possibilidade de uma crise sistêmica no setor financeiro. Falando na Federação das Associações Comerciais do Rio Grande do Sul, no dia 20/11, o ministro previu, no entanto, que o processo de reestruturação do setor se estenderá pelos próximos anos. Para Malan, os bancos terão que se adequar a uma realidade que já impera nos Estados Unidos e na Europa, que se relaciona com a economia de escala, desenvolvimento na área de informática, eficiência e alto grau de competitividade. (Vide “Experiência internacional”)

Números da ação do BC
Período: 13.03.74 to 04.12.95
7 sob regime de Intervenção
13 sob regime de Administração Especial Temporária
108 sob regime de Liquidação Extrajudicial
Subtotal .. 128 entidades atualmente submetidas a Regime Especial
6 encerradas por decisão judicial
296 regimes especiais encerrados
72 liquidações ordinárias
84 falências
3 regimes suspensos por decisão judicial
Subtotal .. 461 regimes especiais já encerrados
Overall Total .. 589 empresas submetidas a regime especial até 04 Dez 95

Com o Proer a fiscalização será ampliada

Em depoimento no Congresso, no dia 28/11, o presidente Gustavo Loyola informou aos parlamentares que o BC terá reformulada sua área de fiscalização, de forma a ganhar mais eficiência no acompanhamento da situação patrimonial dos Bancos. Além disso, serão propostas mudanças na atual legislação para cobrar responsabilidades das empresas de auditoria independente que dão parecer a balanços das instituições financeiras. Essas são, na afirmação de Loyola, as duas medidas que faltam para complementar o Proer. Gustavo Loyola disse ainda que a maior parte da estrutura de fiscalização do Banco Central está hoje voltada para apurar o cumprimento das normas do SFN. A intenção é fortalecer cada vez mais a fiscalização prudencial dos bancos, verificando-se a liquidez e a qualidade dos ativos. Criticado pelo fato de o Banco Central chegar atrasado no saneamento do sistema financeiro, por deixar quebrar bancos grandes como o Econômico e o Nacional antes de adotar medidas de estímulo às fusões e incorporações, Loyola não aceitou a função de coveiro de banco. E pediu que a sociedade preste mais atenção às medidas em que o BC acertou. "Seria a mesma coisa que medir a carreira de um médico pelo número de óbitos que ele assinou", disse. "Precisamos conferir também os doentes que ele curou", concluiu. A tarefa atribuída ao Banco Central, de exercer a fiscalização de consórcios e do Proagro, tem absorvido a maior parte da equipe do BC. Conseqüentemente, fica prejudicado o trabalho junto ao Sistema Financeiro Nacional. O Departamento de Fiscalização do Banco, composto por 548 técnicos, é responsável pela análise de operações realizadas em 3.389 pontos, entre instituições financeiras e administradoras de consórcios. "Hoje, temos apenas um fiscal para fiscalizar seis instituições. É preciso redefinir o papel do Banco Central para que ele possa, de fato, fiscalizar os bancos", disse Loyola, que espera, daqui para a frente, maior agilidade da área de fiscalização para que possa atuar de forma preventiva em torno de medidas destinadas a garantir maior liquidez aos bancos. A Medida Provisória (MP) do sistema financeiro está dando ao BC esses poderes para atuar preventivamente, identificado qualquer problema de liquidez (Vide quadro "Números da ação do BC")

Que tamanho terá o novo SFN?

Os profissionais e executivos que atuam no mercado financeiro já começaram a praticar um pouco de futurologia. Para alguns, o novo sistema financeiro do país deverá ficar dividido em três mercados distintos: varejo (com poucos mas grandes estabelecimentos), investimento (com poucas e ágeis instituições) e especializado (em venda de veículo, por exemplo). A opinião corrente é que o número de bancos poderá diminuir, mas o tamanho do sistema será maior, uma vez que ele vai crescer junto com a economia e mais e mais pessoas e empresas vão demandar serviços bancários, garantem alguns. Ainda no campo das previsões, é possível que até 2005 o sistema financeiro esteja totalmente reestruturado. Além do processo de fusões e incorporações e da redução no número de bancos, haveria uma novidade na oferta de serviços: créditos mais baratos para a população.

Para saber qual a opinião do presidente do BC, Gustavo Loyola, a respeito do futuro do sistema financeiro e do papel que caberá à autoridade monetária, fizemos a ele a seguinte pergunta: As medidas implantadas no âmbito do Proer levarão ao enxugamento de instituições bancárias em operação no país. Na sua opinião, qual será a extensão desse enxugamento e por quais transformações o BC terá que passar para se adequar ao novo desenho do SFN?

Gustavo Loyola: "É bastante prematuro falar no número de bancos que resultará desse processo. Temos ouvido e lido vários números, mas isso é pura especulação. Ninguém poderá prever o resultado de um processo dinâmico por natureza. O que se está fazendo é um programa em que o Banco Central, por meio de linhas de crédito, procura estimular fusões, incorporações e transferências de controle acionário, como medidas preventivas a problemas que possam advir no sistema bancário brasileiro. Para isso, o Banco Central ganhou novos instrumentos para prevenir situações de risco e, inclusive, punir e afastar os administradores e controladores de instituições financeiras. A extensão do regime de responsabilidade da Lei 6.024 aos controladores foi uma inovação bastante importante. A idéia do Proer é buscar o menor custo para o Tesouro e para a sociedade, preservando o interesse dos depositantes. O programa contempla também o seguro de depósitos para valores até R$ 20 mil, atendendo a mais de 95% dos depositantes, que são justamente aqueles que têm menos acesso às informações sobre as instituições financeiras, que ficam, assim, protegidos no caso de intervenções ou liquidações.

Esse conjunto de medidas necessita ainda ser complementado por duas outras ações. Seria preciso adotar no Brasil um sistema, já existente em outras partes do mundo, que responsabiliza os auditores pelos seus pareceres nos balanços das instituições financeiras, em particular, e das empresas em geral. Por outro lado, seria preciso mudar a filosofia de fiscalização do Banco Central, que atualmente se concentra mais na adequação formal a determinadas regras estabelecidas na regulamentação do que na análise da situação patrimonial das instituições. Essa questão está sendo sanada mediante intercâmbio com entidades reguladoras de outros países e cursos internos e externos, o que permitirá mudança da atual filosofia a curto prazo. Existem ainda outras tarefas complementares com vistas à manutenção da liquidez e da solvência das instituições financeiras. Nada impede que isso enseje um saudável debate público sobre o comportamento do Banco Central no passado e os instrumentos que pretenda dispor no futuro, desde que isso não degenere em especulações perniciosas sobre o sistema financeiro".

Experiência internacional

A globalização do mercado financeiro internacional tornou inevitável o processo de fusão e aquisição de bancos e instituições financeiras em muitos países. Esse fenômeno abrange, pelos mesmos motivos, outros setores da economia.

Estados Unidos- Há dez anos o número de bancos nos Estados Unidos era de 14.500 aproximadamente, restando hoje 10.000, com tendência de aceleração dos processos de fusão. O caso mais recente foi, ao final de agosto, a compra do Chase Manhattan pelo Chemical Banking, resultando no maior banco daquele país. Pode-se ainda mencionar, como destaque, a operação envolvendo o Bank of America e o Continental. Países Nórdicos (Noruega, Suécia e Finlândia) - A preocupação dos governos desses países com as crises bancárias resultou em diversas alternativas. A liquidação de instituições financeiras foi pouco utilizada e apenas para pequenos bancos.

Outra alternativa foi a venda através de um “Acordo de Compra e Assunção”. Esses acordos podem ser do tipo “banco todo” ou “banco saneado”. No primeiro caso, todo o ativo (mesmo o de má qualidade) e todo o passivo são transferidos para a instituição adquirente, mantendo-se o controle no setor privado, reforçando o incentivo ao saneamento. Para recuperar o valor do patrimônio líquido, o governo provê uma linha de assistência e pode receber garantias conversíveis em ações, tendo como resultado uma potencial participação nos lucros futuros da instituição. Se o valor futuro dos ativos ruins é de difícil fixação, afetando a definição do montante da assistência necessária, as autoridades podem suprir “cobertura para perdas de capital”, ou seja, elas podem emitir garantias para os ativos de baixa qualidade que permaneceram nos balanços do banco, ou podem ainda oferecer “pagamentos permanentes” pelas aplicações ruins.

A opção de “banco saneado” nos acordos de compra e assunção permite que o adquirente assuma todo o passivo e nenhum ativo (ou pelo menos não os ativos de má qualidade). Estes são transferidos para outro banco, denominado “bad bank”. A hipótese é de que uma instituição especializada em ativos ruins será mais eficiente na recuperação do valor máximo possível. A separação dos ativos, para a adquirente, elevam o incentivo da transação através da redução do risco, ao mesmo tempo em que estando a operação solucionada, a instituição sadia será capaz de obter um melhor desempenho sem a constante intervenção do governo.

México - A política de incentivos a fusões de bancos no México teve início em meados dos anos 80, quando bancos pequenos e médios com problemas estruturais e baixa eficiência foram auxiliados financeiramente pelo Banco do México. Recentemente foi criado o Programa de Capitalização Temporária (Procapte), que consiste na emissão de debêntures conversíveis em ações do banco participante. Suas principais características são as seguintes: # administração através do Fundo Bancário de Proteção à Poupança (Fobaproa), com recursos provisionados pelo Banco do México; # duração: cinco anos, sujeita a redução caso o administrador considere as condições de mercado favoráveis à capitalização da instituição; # obrigatoriedade de manutenção de coeficiente de capital de no mínimo 9% por parte da instituição participante; # impedimento de emissão de ações, ou debêntures conversíveis em ações, durante o tempo do programa, exceto no caso do resgate prévio das debêntures emitidas no contexto do programa.

Argentina - A crise mexicana, no final de 1994, produziu reflexos no sistema financeiro argentino, sob a forma de retirada maciça de depósitos. Além de outras medidas, como a instituição do mecanismo de seguro depósito, em abril, foram estimuladas as fusões e absorções, com a autoridade monetária procurando minimizar os fechamentos de bancos. O governo argentino estabeleceu um fundo para capitalizar os bancos. O fundo será financiado inicialmente com a emissão de US$2 bilhões de títulos do governo com um prazo de 3 anos, abrangendo somente bancos em condições de recuperação. Além disso, as autoridades têm incentivado a aquisição de bancos insolventes ou fechados, por outras instituições sólidas, sem restrição de nacionalidade. Como resultado, dos 168 bancos existentes no final de dezembro de 1994, mantiveram-se 133 ao final de outubro do corrente ano. Com esse processo o governo espera recuperar a confiança do público no sistema financeiro.

Chile - como conseqüência da crise financeira de 1982 e 1983, foi iniciado em 1984 um processo de capitalização e reprivatização dos bancos sob intervenção. Com o objetivo de resolver rapidamente a questão da insuficiência de capital, o recebimento de garantias foi condicionado à apresentação de um plano de aumento do capital acionário das instituições com problemas.

Várias facilidades para venda e injeção de capital foram usadas para normalizar o sistema bancário, tais como: capitalização através da emissão e venda de novas ações com significativas vantagens creditícias e fiscais, venda direta a investidores, fusões e mudanças de objeto social. Esta normalização foi buscada através de estrita regulamentação estatal.

Japão - No final da década de 80, a economia japonesa viveu um ‘boom” econômico, que elevou expressivamente o valor dos ativos financeiros e das ações tanto de empresas financeiras quanto das demais corporações. Neste momento a política monetária expansionista provia liquidez em abundância o que, acrescido à oferta de capitais internacionais, estimulava ainda mais a elevação do preço de mercado dos diversos títulos negociados. Neste contexto as instituições financeiras bancárias, especialmente as não bancárias, elevaram significativamente seus créditos, emprestando a empreendimentos de rentabilidade duvidosa e, muitas vezes, com taxas de retorno inferiores às aceitáveis no resto do mundo. Com a reversão do ciclo e implementação de política monetária restritiva, ao final da década de 80 e início dos anos 90, a escassez dos recursos financeiros promoveu uma queda no valor dos ativos. Isto provocou forte inadimplência e anormal deterioração dos ativos das instituições financeiras. A dificuldade enfrentada pelas entidades financeiras é normalmente contornada pela sua incorporação/fusão com grandes instituições sadias. Neste sentido o governo japonês propôs, em 1992, que fosse permitida a participação acionária e a fusão de bancos comerciais com bancos de créditos de longo prazo e bancos especializados em operações cambiais. Além disso outras medidas foram adotadas, como a autorização para a postecipação da contabilização de créditos em liquidação e o retardamento na prestação de informações sobre ativos de má qualidade, estímulo aos investidores institucionais à não realização de ganhos financeiros visando sua capitalização, além do anúncio de provimento de fundos para auxiliar os bancos a liquidar seus créditos ruins.

A atual situação dos bancos japoneses, além das medidas adotadas pelo governo local, tem suscitado reações, como a discussão nos Estados Unidos sobre a possibilidade de ajuda financeira por parte do Federal Reserve, tendo em vista os impactos negativos sobre a economia norte-americana da elevação das taxas de juros, decorrentes de possíveis vendas maciças de bônus mantidos por aquelas instituições.

Informações recentes levaram à possibilidade de fusão dos bancos Daiwa e Sumitomo, o que criaria um dos maiores bancos do mundo. Segundo o ministro das Finanças do Japão, tal fusão seria necessária para evitar distúrbios no mercado financeiro, após reguladores norte-americanos terem, no final de outubro, ordenado o fim das operações do Daiwa nos Estados Unidos.